Rosa-dos-Ventos

No livro da vida não se volta quando se quer, a página já lida, para melhor entendê-la;
nem pode se fazer a pausa necessária à reflexão.
Os acontecimentos nos tornam e nos arrebatam às vezes tão rapidamente
que nem deixam volver um olhar ao caminho percorrido.
(José de Alencar, in Lucíola)

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domingo, 8 de novembro de 2009

Litoral em outubro II




Na Praia da Guarita - ninguém do outro lado das pedras... apenas uma paisagem convidativa à apreciação - o mar se estentendo sem fim e os pássaros aproveitando a ausência da nossa espécie, mas que eu, despropositadamente, espantava com minha aproximação.



Mas em seguida pousavam um pouco mais adiante - como que brincando comigo. Como não fotografar?



Aproximava-me de bicicleta, descia dela e fotografava, aproximando-me vagarosamente e fotografando - não sabia qual o limite de aproximação, quando levantariam vôo.


Aproximava-me até levantarem vôo, então subia na bicicleta e me aproximava novamente, descia dela, apreciava as aves e ia me aproximando e fotografando... subia e descia da bicicleta...









Resolvi não descer mais da bicicleta e tirar fotos com uma das mãos, guiando com a outra. Embora destreinada quanto a andar de bicicleta, deu certo!

O grupo de pássaros fazia o mesmo que antes, permitindo minha áproximação até certo ponto, quando então levantavam vôo para pousar um pouco mais adiante.




























 



Em um momento, algumas aves permaneceram onde estavam, ainda que eu tenha me aproximado bastante, mas ficaram na areia fofa à minha direita. Posso fotografá-las mais de perto - pensei.

Ops! Não posso...

Com a areia fofa, perdi o controle da bicicleta e esparramei-me na areia, mas com um dos braços erguido para preservar a câmera, que mesmo assim não quis mais funcionar.

Sem fotografar, pedalei até Rondinha (distante 20 km de Torres), sempre pela areia, exceto ao passar pelo braço de terra em Itapeva.


A Praia da Itapeva possui 6.000 metros de extensão e localiza-se após o Parque da Guarita. Tem esse nome devido ao Morro da Itapeva que em tupi guarani significa "pedra chata". (Fonte: site da cidade de Torres)

Recebida pela Dona Sonja, pude descansar. Almocei e limpei a máquina, que voltou a funcionar (eba!).
Aproveitei então para registrar as belezas do seu jardim.




 




 


Até uma abelhinha fotografei!


 

 




 

 

 



 


Godofredo, garboso, pousou para o registro.



Já Filomena achou que estava muito distante... Na verdade, queria um carinho.

 
Mais algumas obras de arte da Natureza.





De uma pedalada beeeeem maior que a minha, retornou o Seu Egon.
Bem disposto e prestimoso, como sempre, Seu Egon ofereceu-se para levar-me de carro de volta a Torres.
O vento contra com que me depararia na volta, bem observado pelo Seu Egon, e a preguiça, bem observada por mim, compeliram-me a aceitar a carona oferecida.
Obrigada pela acolhida e pela carona!

Litoral em outubro I




De férias no sul do Estado, em outubro, sem companhia e sem muito dinheiro...

Há muito, bastava fechar os olhos para ver o mar, ouvir o barulho das ondas e sentir a areia sob os pé - não podia (e não queria) lutar contra essa atração.

Qualquer lugar estaria ótimo, quaisquer condições meteorológicas também.

No dia 20 de outubro, fui.

 

Fui para a praia de Torres.



Deixei minha pequena bagagem no hotel e dirigi-me à praia, que me presenteou com sua beleza - um bálsamo. Quase não havia ninguém.



Pude sorver a imagem do vaivém das ondas, o barulho do mar e dos pássaros, sentir o cheiro... quis sentir tudo intensamente, pois há tempo não fazia isso.





 
Parece que a Natureza está sempre tentando nos agradar (apesar de tudo o que a nossa espécie já aprontou!), bastando dar atenção ao que nos cerca.




Um pedaço do mar e da Praia Grande visto da varanda da pousada em que me hospedara


 



No dia seguinte, pude ver o sol, antes que se escondesse por trás das nuvens.


 





Pareceu-me dizer 'bom dia'!

Para aproveitar melhor minha pequena estada, aluguei uma bicicleta, que me permitiu acesso aos lugares que queria visitar com mais facilidade.


Na Praia da Guarita



"A praia da Guarita se localiza entre falésias (as torres, que dão nome à cidade), tendo ao norte o Morro das Furnas e ao sul o Morro da Guarita, com um pináculo isolado ao centro. Integra a área de proteção ambiental do Parque da Guarita."
(Fonte: Wikipédia)

Este, o Parque Estadual da Guarita, possui cerca de 350 hectares. Há cinco décadas está privado de gerenciamento. Somente em janeiro de 2002 houve um projeto privado em parceria com a municipalidade para revitalizá-lo e dar-lhe uma conotação tanto de educação ambiental como turística. Com o advento do furacão Catarina, o projeto foi desativado.






Sem aquela multidão da alta temporada no verão...


... a praia mostrava-se agradavelmente solitária.





Assim como este pescador, também solitário.



E este outro solitário...

domingo, 1 de novembro de 2009

Era




Era um rosto
Um olhar
Um acalento

Era um corpo
Uma paixão
Um prazer
Era único

Era um porto seguro
Uma forte nau em meio a um oceano atribulado
Era quase uma necessidade

Era um homem
Ensinou-me a viver
Demorei a aprender
Era uma vida

Era ardor
Eram chamas
Era dor

Eram lembranças
Era saudade
Era um amor
Puro
Intenso

Era esperança
Era.





O Pequeno Príncipe - cativa-me


XXI

E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia, disse a raposa.

- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.

- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...

- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...

- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

- Ah! Desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?

- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?

- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?

- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?

- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."

- Criar laços?

- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...

- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...

- Oh! Não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

- Num outro planeta?

- Sim.

- Há caçadores nesse planeta?

- Não.

- Que bom! E galinhas?

- Também não.

- Nada é perfeito, suspirou a raposa.



Mas a raposa voltou à sua idéia.

- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas, e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.



O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

- Por favor... cativa-me! disse ela.

- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.

- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...

No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.

- Que é um rito? perguntou o principezinho.

- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.

- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...

- Quis, disse a raposa.

- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.

- Vou, disse a raposa.

- Então, não sais lucrando nada!

- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

- Vais rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:

- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

- Adeus, disse ele...

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...

- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.