Rosa-dos-Ventos

No livro da vida não se volta quando se quer, a página já lida, para melhor entendê-la;
nem pode se fazer a pausa necessária à reflexão.
Os acontecimentos nos tornam e nos arrebatam às vezes tão rapidamente
que nem deixam volver um olhar ao caminho percorrido.
(José de Alencar, in Lucíola)

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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Até onde posso
vou deixando o melhor de mim...
Se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração.
(Clarice Lispector)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ano novo



Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos.
Luís Vaz de Camões



O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.
Luís Vaz de Camões 




Luís Vaz de Camões. Poeta Português, nascido entre 1517 e 1525, morreu em 10 de junho de 1580 em Lisboa, Portugal.
É frequentemente considerado como o maior poeta de língua portuguesa e dos maiores da Humanidade.
(wikipedia.org)



  De fato, um poeta que se distinguiu, pois quem nunca leu ou ouviou "Amor é fogo que arde sem se ver"?



Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.

Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria. 
 

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sê


Lembranças vagas da infância a fachada dessa casinha me traz... Encontrando-a em meio à névoa, meus pensamentos vaguearam... topando com a simplicidade, com a nostalgia, com um viver intenso, com a transformação, com a saudade...



Sê

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Pablo Neruda

domingo, 8 de novembro de 2009

Humano coração

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Se tudo quanto existe

Se tudo quanto existe
é lenta evolução,
longa transformação
sem Deus e sem mistério;
se tudo no Universo tem sentido
sem o sopro divino;
se o segredo da vida, a criação,
se explica pela ciência,
e a corrente vital
é também consequência;
se a humana consciência
é simples equação...
que significa a vocação do eterno,
que quer dizer a aspiração do Céu
e o terror do Inferno?

E se acaso é o instinto a lei da vida,
se a verdade
é só necessidade
inexorável, lenta, laboriosa,

que sábia explicação
tem esta frágil, esta inútil rosa?

(Fernanda de Castro in «Asa no espaço», 1955)


fernanda de castro

Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro (Lisboa, 8 de Dezembro de 1900 – 19 de Dezembro de 1994), foi uma escritora portuguesa.

Poetisa, romancista, dramaturga e tradutora Fernanda de Castro estreou-se aos 19 anos com o livro de poesia Ante-Manhã. Vence nesse ano (1919) o Primeiro Prémio no concurso de originais do Teatro Nacional, com a peça Náufragos. Com o romance Maria da Lua (1945) foi a primeira mulher a obter o prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa. Em 1969 é-lhe atribuido o Prémio Nacional de Poesia. Foi também tradutora de Rilke (Cartas a um Poeta), de Katherine Mansfield (Diário), de Sófocles, Pirandello, Maeterlinck e Jonesco.

Foi juntamente com o marido e outros, fundadora da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, actualmente designada por Sociedade Portuguesa de Autores.

O escritor David Mourão-Ferreira, durante as comemorações dos cinquenta anos de actividade literária de Fernanda de Castro disse: “Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração, que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema, que o Sol ao meio-dia, olhado de frente, não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite”.

Herdei uns olhos claros, sem pecado,
toda uma tradição, todo um passado,
de inocência, de amor e de perdão.
Um desejo de paz, de vida calma,
uma alma capaz de só ser alma,
E um doloroso, humano coração.
Fernanda de Castro

(Fontes: Wikipédia e Blog sobre Fernanda de Castro por Antonio Quadros Ferro)


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Quando te dói a alma

Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,

quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,

quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,

nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor.

(Fernanda de Castro in «Poesia II»)

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Urgente

Urgente é construir serenamente
seja o que for, choupana ou catedral,
é trabalhar a peda, o barro, a cal,
é regressar às fontes, à nascente.

É não deixar perder-se uma semente,
é arrancar as urtigas do quintal,
é fazer duma rosa o roseiral,
sem perder tempo. Agora. Já. É urgente.

Urgente é respeitar o Amigo, o Irmão,
é perdoar, se alguém pede perdão,
é repartir o trigo do celeiro.

Urgente é respirar com alegria,
ouvir cantar a rola, a cotovia,
e plantar no pinhal mais um pinheiro.

(Fernanda de Castro in «Poesia II»)

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Eu

O homem de génio diz: eu sou.
O poderoso afirma: eu posso.
O rico diz: eu tenho.
O ambicioso: eu quero.
Eu! Eu! Eu!
E, afinal,
esses que vivem sós, completamente sós,
quanto dariam para como tu,
ou como eu,
dizerem simplesmente: nós.

(Fernanda de Castro in «Poesia I»)

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Mais um dia perdido

Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pásaro morto.
Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.
Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.
Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas.

(Fernanda de Castro in «Urgente»)

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As flores que embelezam esta postagem integram o jardim da Dona Sonja, em Nova Petrópolis.

domingo, 18 de outubro de 2009

Tarde no parque


Em uma tarde de sol, que estava um tanto tímido, aproveitei para dar uma caminhada no Parque Farroupilha da capital gaúcha e fotografar.







Estou a fotografar a paisagem... mas algo que eu não vira apareceu na foto, algo escuro se movimentando na água.



Um cão nadador...





Seu dono de estimação (como diria uma querida amiga minha) jogava um galho na água, e o cão, sem hesitar, saltava na água (na verdade era necessário que o seu dono apenas fizesse menção de atirar o galho na água para que o nadador já se jogasse!). E cada salto seu era 'splash' bem forte...



E na outra margem, há um imitador....







Entretendo-me com os nadadores, nem percebi que tinha companhia - adorável companhia!









E mais outra, também adorável!















O Pássaro Cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...

Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar! ... “
Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.

E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...
(Olavo Bilac - Poesias Infantis)







Minha companhia não me deixou até eu ir embora, para lá e para cá, com sua meiguice e delicadeza.







Leveza
Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garaganta,
mais leve.
E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.
(Cecília Meireles)





sábado, 17 de outubro de 2009

Saudade


Estou com saudades de te sorrir...
Olho em volta, desejando saber que logo soltarei meu sorriso.


A memória voa
O suspiro se desprende
Os minutos pairam no ar
Mas o tempo morre e desaparece
E o silêncio diz teu nome

Não finda porém
O tempo em que te espero
Que assiste ao leito que as lágrimas
Nascendo do peito formam
Correndo pelo corpo que te anseia

Os sonhos deito nos versos
Tolos, mas que me acalentam
Nesse desnorte provocado pela tua perda
Pois as lembranças não findam
Remetendo a ti

Alívio não há nem é querido
Apenas o coração desejoso
De ver-te novamente
De ter-te novamente
Esperançoso







Saudade

“...Saudade é solidão acompanhada,
É quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado
que ainda não passou,

É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe
o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
É a dor dos que ficaram para trás,
É o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
Aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
Não ter por quem sentir saudade,
Passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido...”

Pablo Neruda



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Entardecer na capital I



Um espetáculo, um bálsamo para a alma proporciona-nos a Natureza, presente até em meio à civilização, ao que chamam de progresso, essa capacidade que o homem tem de criar necessidades e vantagens para as quais sacrifica seu precioso tempo.




A Sombra de um Salgueiro
Fugi das chaminés
do fumo, que era um denso nevoeiro,
e procurei, na beira dum regato,
a sombra de um salgueiro.
o aro parado, absorto,
mas na água tranqüila
vogava um peixe morto.
(Fernanda de Castro - 1989)




"O Guaíba é um grande lago (496 Km²) ao qual Porto Alegre está histórica e culturalmente ligada, desde a chegada dos primeiros casais açorianos até o atual desenvolvimento econômico da região. Porém, antes disso, o Guaíba é um ecossistema que sustenta uma rica biodiversidade, onde interagem diversas espécies vegetais e animais, que dependem de sua boa qualidade e preservação.
Por quase toda a sua existência considerado um rio, há um pouco mais de 20 anos - após criterioso estudo envolvendo técnicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e de universidades norte-americanas - foi classificado como um grande lago. Sua bacia hidrográfica abrange uma área de 85.950 Km², equivalente a 30% do território gaúcho. Nela, estão situados os núcleos industriais mais importantes do Estado, concentrando 2/3 da produção industrial do Rio Grande do Sul e os centros urbanos mais populosos, onde vivem 70% da população.
O Guaíba é formado pelo Rio Jacuí (84,6%), Sinos(7,5%), Caí (5,2%) e Gravataí(2,7%), recebendo também as águas dos arroios situados às suas margens. Trata-se de um estuário no Rio Grande do Sul, Brasil. Estes rios desembocam no Delta do Jacuí, formando então o Guaíba, que banha os municípios de Porto Alegre, Eldorado do Sul, Guaíba, Barra do Ribeiro e Viamão. A partir do Guaíba, as águas vão para a Lagoa dos Patos e, por seqüência, para o Oceano Atlântico.
De origem indígena, o nome significa "lugar onde o rio se alarga" (gua - grande, I - água ou rio, ba - lugar).Possui uma área de 496 quilômetros quadrados, um comprimento de 50 quilômetros, uma largura variável entre 900 metros e 19 quilômetros, uma profundidade média de 3 metros, um canal de navegação entre 4 a 6 metros e um volume de 1,5 bilhão de metros cúbicos.
Na orla do Guaíba, encontram-se diversos pontos referenciais de Porto Alegre, tais como o Cais do Porto, a Usina do Gasômetro, a avenida Beira-Rio (muito usada para esportes), o Anfiteatro Pôr-do-Sol, as ruínas do Estaleiro Só, o Iate Clube Guaíba, o Clube Veleiros do Sul, o Clube dos Jangadeiros, entre outros.
A Ponte do Guaíba é a ponte que o cruza, ligando a capital à porção sul do Estado."
(Fonte: Wikipédia)


















































Se cada dia cai
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência
(Pablo Neruda)