quarta-feira, 30 de setembro de 2015
vou deixando o melhor de mim...
Se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração.
(Clarice Lispector)
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Ano novo
Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos.
Luís Vaz de Camões
O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;
O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.
O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.
Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

Luís Vaz de Camões. Poeta Português, nascido entre 1517 e 1525, morreu em 10 de junho de 1580 em Lisboa, Portugal.
É frequentemente considerado como o maior poeta de língua portuguesa e dos maiores da Humanidade.
(wikipedia.org)
De fato, um poeta que se distinguiu, pois quem nunca leu ou ouviou "Amor é fogo que arde sem se ver"?
Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.
Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Sê
Lembranças vagas da infância a fachada dessa casinha me traz... Encontrando-a em meio à névoa, meus pensamentos vaguearam... topando com a simplicidade, com a nostalgia, com um viver intenso, com a transformação, com a saudade...
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.
Pablo Neruda
domingo, 8 de novembro de 2009
Humano coração
Se tudo quanto existe
Se tudo quanto existe
é lenta evolução,
longa transformação
sem Deus e sem mistério;
se tudo no Universo tem sentido
sem o sopro divino;
se o segredo da vida, a criação,
se explica pela ciência,
e a corrente vital
é também consequência;
se a humana consciência
é simples equação...
que significa a vocação do eterno,
que quer dizer a aspiração do Céu
e o terror do Inferno?
E se acaso é o instinto a lei da vida,
se a verdade
é só necessidade
inexorável, lenta, laboriosa,
que sábia explicação
tem esta frágil, esta inútil rosa?
(Fernanda de Castro in «Asa no espaço», 1955)
Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro (Lisboa, 8 de Dezembro de 1900 – 19 de Dezembro de 1994), foi uma escritora portuguesa.
Poetisa, romancista, dramaturga e tradutora Fernanda de Castro estreou-se aos 19 anos com o livro de poesia Ante-Manhã. Vence nesse ano (1919) o Primeiro Prémio no concurso de originais do Teatro Nacional, com a peça Náufragos. Com o romance Maria da Lua (1945) foi a primeira mulher a obter o prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa. Em 1969 é-lhe atribuido o Prémio Nacional de Poesia. Foi também tradutora de Rilke (Cartas a um Poeta), de Katherine Mansfield (Diário), de Sófocles, Pirandello, Maeterlinck e Jonesco.
Foi juntamente com o marido e outros, fundadora da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, actualmente designada por Sociedade Portuguesa de Autores.
O escritor David Mourão-Ferreira, durante as comemorações dos cinquenta anos de actividade literária de Fernanda de Castro disse: “Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração, que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema, que o Sol ao meio-dia, olhado de frente, não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite”.
Herdei uns olhos claros, sem pecado,
toda uma tradição, todo um passado,
de inocência, de amor e de perdão.
Um desejo de paz, de vida calma,
uma alma capaz de só ser alma,
E um doloroso, humano coração.
Fernanda de Castro
(Fontes: Wikipédia e Blog sobre Fernanda de Castro por Antonio Quadros Ferro)
Quando te dói a alma
Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,
quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,
quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,
nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor.
(Fernanda de Castro in «Poesia II»)
Urgente
Urgente é construir serenamente
seja o que for, choupana ou catedral,
é trabalhar a peda, o barro, a cal,
é regressar às fontes, à nascente.
É não deixar perder-se uma semente,
é arrancar as urtigas do quintal,
é fazer duma rosa o roseiral,
sem perder tempo. Agora. Já. É urgente.
Urgente é respeitar o Amigo, o Irmão,
é perdoar, se alguém pede perdão,
é repartir o trigo do celeiro.
Urgente é respirar com alegria,
ouvir cantar a rola, a cotovia,
e plantar no pinhal mais um pinheiro.
(Fernanda de Castro in «Poesia II»)
Eu
O homem de génio diz: eu sou.
O poderoso afirma: eu posso.
O rico diz: eu tenho.
O ambicioso: eu quero.
Eu! Eu! Eu!
E, afinal,
esses que vivem sós, completamente sós,
quanto dariam para como tu,
ou como eu,
dizerem simplesmente: nós.
(Fernanda de Castro in «Poesia I»)
Mais um dia perdido
Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pásaro morto.
Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.
Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.
Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas.
(Fernanda de Castro in «Urgente»)
As flores que embelezam esta postagem integram o jardim da Dona Sonja, em Nova Petrópolis.
domingo, 18 de outubro de 2009
Tarde no parque
Em uma tarde de sol, que estava um tanto tímido, aproveitei para dar uma caminhada no Parque Farroupilha da capital gaúcha e fotografar.
Estou a fotografar a paisagem... mas algo que eu não vira apareceu na foto, algo escuro se movimentando na água.
Seu dono de estimação (como diria uma querida amiga minha) jogava um galho na água, e o cão, sem hesitar, saltava na água (na verdade era necessário que o seu dono apenas fizesse menção de atirar o galho na água para que o nadador já se jogasse!). E cada salto seu era 'splash' bem forte...
E na outra margem, há um imitador....
Entretendo-me com os nadadores, nem percebi que tinha companhia - adorável companhia!
E mais outra, também adorável!
Minha companhia não me deixou até eu ir embora, para lá e para cá, com sua meiguice e delicadeza.
sábado, 17 de outubro de 2009
Saudade
Estou com saudades de te sorrir...
Olho em volta, desejando saber que logo soltarei meu sorriso.

A memória voa
O suspiro se desprende
Os minutos pairam no ar
Mas o tempo morre e desaparece
E o silêncio diz teu nome
Não finda porém
O tempo em que te espero
Que assiste ao leito que as lágrimas
Nascendo do peito formam
Correndo pelo corpo que te anseia
Os sonhos deito nos versos
Tolos, mas que me acalentam
Nesse desnorte provocado pela tua perda
Pois as lembranças não findam
Remetendo a ti
Alívio não há nem é querido
Apenas o coração desejoso
De ver-te novamente
De ter-te novamente
Esperançoso
Saudade
“...Saudade é solidão acompanhada,
É quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado
que ainda não passou,
É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe
o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
É a dor dos que ficaram para trás,
É o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
Aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
Não ter por quem sentir saudade,
Passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido...”
Pablo Neruda
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Entardecer na capital I
Fugi das chaminés
do fumo, que era um denso nevoeiro,
e procurei, na beira dum regato,
a sombra de um salgueiro.
o aro parado, absorto,
mas na água tranqüila
vogava um peixe morto.
Se cada dia cai
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência
(Pablo Neruda)



