quarta-feira, 30 de setembro de 2015
vou deixando o melhor de mim...
Se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração.
(Clarice Lispector)
sábado, 22 de outubro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Ano novo
Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos.
Luís Vaz de Camões
O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;
O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.
O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.
Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

Luís Vaz de Camões. Poeta Português, nascido entre 1517 e 1525, morreu em 10 de junho de 1580 em Lisboa, Portugal.
É frequentemente considerado como o maior poeta de língua portuguesa e dos maiores da Humanidade.
(wikipedia.org)
De fato, um poeta que se distinguiu, pois quem nunca leu ou ouviou "Amor é fogo que arde sem se ver"?
Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.
Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
BR 116 interditada
A estrada que liga Nova Petrópolis a Caxias do Sul, a BR 116, estava interditada, e um compromisso dominical exigiu que fosse tomado um itinerário um pouco mais longo, de chão batido, pelo interior das cidades: êba!
Sem possibilidade de parar para sacar fotos, brinquei com a câmera sacando fotos com o carro em movimento, com a certeza de que não renderia nenhuma fota para contar história... Para minha surpresa, embora o dia nublado não tenha contribuído com lindos tons na retratação da paisagem, gostei das imagens que obtive na brincadeira.
Sê
Lembranças vagas da infância a fachada dessa casinha me traz... Encontrando-a em meio à névoa, meus pensamentos vaguearam... topando com a simplicidade, com a nostalgia, com um viver intenso, com a transformação, com a saudade...
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.
Pablo Neruda
domingo, 8 de novembro de 2009
Humano coração
Se tudo quanto existe
Se tudo quanto existe
é lenta evolução,
longa transformação
sem Deus e sem mistério;
se tudo no Universo tem sentido
sem o sopro divino;
se o segredo da vida, a criação,
se explica pela ciência,
e a corrente vital
é também consequência;
se a humana consciência
é simples equação...
que significa a vocação do eterno,
que quer dizer a aspiração do Céu
e o terror do Inferno?
E se acaso é o instinto a lei da vida,
se a verdade
é só necessidade
inexorável, lenta, laboriosa,
que sábia explicação
tem esta frágil, esta inútil rosa?
(Fernanda de Castro in «Asa no espaço», 1955)
Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro (Lisboa, 8 de Dezembro de 1900 – 19 de Dezembro de 1994), foi uma escritora portuguesa.
Poetisa, romancista, dramaturga e tradutora Fernanda de Castro estreou-se aos 19 anos com o livro de poesia Ante-Manhã. Vence nesse ano (1919) o Primeiro Prémio no concurso de originais do Teatro Nacional, com a peça Náufragos. Com o romance Maria da Lua (1945) foi a primeira mulher a obter o prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa. Em 1969 é-lhe atribuido o Prémio Nacional de Poesia. Foi também tradutora de Rilke (Cartas a um Poeta), de Katherine Mansfield (Diário), de Sófocles, Pirandello, Maeterlinck e Jonesco.
Foi juntamente com o marido e outros, fundadora da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, actualmente designada por Sociedade Portuguesa de Autores.
O escritor David Mourão-Ferreira, durante as comemorações dos cinquenta anos de actividade literária de Fernanda de Castro disse: “Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração, que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema, que o Sol ao meio-dia, olhado de frente, não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite”.
Herdei uns olhos claros, sem pecado,
toda uma tradição, todo um passado,
de inocência, de amor e de perdão.
Um desejo de paz, de vida calma,
uma alma capaz de só ser alma,
E um doloroso, humano coração.
Fernanda de Castro
(Fontes: Wikipédia e Blog sobre Fernanda de Castro por Antonio Quadros Ferro)
Quando te dói a alma
Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,
quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,
quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,
nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor.
(Fernanda de Castro in «Poesia II»)
Urgente
Urgente é construir serenamente
seja o que for, choupana ou catedral,
é trabalhar a peda, o barro, a cal,
é regressar às fontes, à nascente.
É não deixar perder-se uma semente,
é arrancar as urtigas do quintal,
é fazer duma rosa o roseiral,
sem perder tempo. Agora. Já. É urgente.
Urgente é respeitar o Amigo, o Irmão,
é perdoar, se alguém pede perdão,
é repartir o trigo do celeiro.
Urgente é respirar com alegria,
ouvir cantar a rola, a cotovia,
e plantar no pinhal mais um pinheiro.
(Fernanda de Castro in «Poesia II»)
Eu
O homem de génio diz: eu sou.
O poderoso afirma: eu posso.
O rico diz: eu tenho.
O ambicioso: eu quero.
Eu! Eu! Eu!
E, afinal,
esses que vivem sós, completamente sós,
quanto dariam para como tu,
ou como eu,
dizerem simplesmente: nós.
(Fernanda de Castro in «Poesia I»)
Mais um dia perdido
Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pásaro morto.
Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.
Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.
Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas.
(Fernanda de Castro in «Urgente»)
As flores que embelezam esta postagem integram o jardim da Dona Sonja, em Nova Petrópolis.
Litoral em outubro IV
Sem sol para aquecer, o friozinho do vento já não permitia vaguear sem antes buscar um agasalho.
A caminho da pousada, minha atenção foi chamada diversas vezes pela beleza da Natureza, que manifesta seu esplendor de uma forma singela, em pequenos detalhes.
Uma espécie um tanto enigmática.
Já estas exalam simpatia.
Sorrisos em forma de flor
E que sorriso!
Perfeição, harmonia, beleza, esplendor…
Esta fachada remeteu-me a um tempo em que a simplicidade talvez estivesse mais presente, as horas andavam e não corriam, o respeito e a gentileza ainda faziam parte do dia-a-dia.
Morou talvez nesta casa um homem solitário que estudava seus livros e passava as noites à luz de velas bebericando licor e escrevendo cartas para seus entes queridos distantes? Ou um casal que na rua se mostrava bastante casto, mas no recôndito da casa desnudava a própria paixão?
Na manhã seguinte, novamente nada era prometido.
Entretanto, sem ser anunciado, o sol deixou-se contemplar ao surgir no horizonte.
Mas apenas por breves instantes…
… pois tímido logo se escondeu no meio das nuvens.
A espiar o que os homens faziam nessa parte da Terra, decidia se brilharia por inteiro ou apenas deixaria alguns raios alcançarem o mar e o que mais bem entendesse, sempre em cumplicidade com as nuvens.
